O CORVO
Na meia noite febril, clima funesto e sombrio Lendo antigos alfarrábios de seita paranormal Na madorna quase ao sono, um som que mal dimensiono Como fosse algum gnomo no meu portal, toque! Toque! O ruído me dá choque, quem seria e… toque! Toque! — Algo do bem ou do mal? Ah!Até hoje bem me lembro. Um pleno agosto em dezembro Em que o abajur avoengo jorra sombra sepulcral Me injeta pavor na veia, no que minh’alma incendeia Pensei: Veio para a ceia o fantasma de Lenora! Quanta hesitação agora! O além devolveu Lenora. Será por bem ou por mal? A cortina em fluidez, em macabra gravidez A me pregar uma peça com seu truque fantasmal Um susto paralisante, feito um inferno circundante Mas eu buscava um calmante um lenitivo qualquer: Um amigo (homem ou mulher) a pedir coisa qualquer É só isso, nada mal! E finalmente me ergui, ressabiado qual sagüi. “Me perdoe aí quem seja, não fiz esperar por mal É que eu estava entretido, em leitura de tempo ido O som só me foi sentido, quando reparei a porta No marasmo da hora morta.” E quando entreabri a porta Escuridão infernal! Espreitei a noite escura, não vi nada, que loucura! Aquela noite aziaga sob o torpor hibernal Horrorizado em pavor, ante o miasma e o negror O nome do findo amor então sussurrei: Lenora! E uma voz assustadora soou em eco: Lenora! Depois, silêncio total! Com a alma febricitante, quis transpor aquele instante. Logo o ruído recomeça, quase arrombando o vitral Eu penso: ah! não é nada, só o vento em debandada. Por que a alma apavorada? É vento de mau agouro Que quer me aplicar desdouro. Só vento de mau agouro Que não me faz nenhum mal. Abro a janela e em revoada, vem entrando a alma-penada: Um litúrgico urubu, vindo de era imemorial Qual lorde passa pimpão, verdadeiro assombração Sobre o busto pousa então, uma escultura de Cristo Com seu humor de Mefisto, sobre a escultura de Cristo Se empoleirou, não faz mal! Miro a ave de escuro manto, malcheirosa, sem encanto, Bicho tosco avariado, até rio do animal Sacrificado urubu, mal emplumado, mal nu, Entre altivo e jururu. Um embaixador do inferno Promotor do azar eterno, sócio emérito do inferno. Crocita o urubu: foi mal. Encabulei com a fala, duma ave daquela iguala Um urubu infeliz, me retorquindo triunfal Pois nunca vi criatura, tão metida na postura E com sua caradura contrapondo o que eu dizia Postulando primazia no argumento que eu dizia Com arremate: está mal. Outra coisa não falava, na escultura ali assentada Sem dispor de outro roteiro a mascote funeral Tão parada quanto um cacho, sem mover um só penacho. Já cansado de esculacho, digo: por favor, vá embora. Já é demais a demora, por amor, vá embora Grasna o urubu: nem por mal! “A Rola”: uma tradução de “The Raven” como você nunca viu Com aquele bicho anexo, fico ainda mais perplexo É tão pouco o que ele diz e me faz débil mental De um vocabulário mínimo, mas num tom um tanto cínico Que parece sem equívoco, lhe ensinou antigo dono Rebatê-lo não há como, com refrão do antigo dono: Nunca, nunca foi tão mal! E perante o bicho escroto ensaio um riso maroto. Fiz girar minha poltrona, diante da ave no umbral Qual será o secreto escopo, deste encontro assim tão oco Que vai me deixando louco este urubu tão sinistro Pressão maior não resisto, e então o urubu sinistro Grasna de novo: está mal. Com seu olhar fulgurante a me queimar o semblante Me refugio no assombro de pensamento abissal No meio da madrugada, com minh’alma incinerada E sem entender mais nada, sob a luz que não lilás Momento eterno e fugaz, sob a luz que não lilás. E o urubu me diz: vai mal! O tempo ficou avesso, em suspenso pó de gesso Como fosse tosco incenso, de algum atroz arsenal. Urubu desventurado, mafioso depravado Vê se vai pra outro lado, se não me trouxe Lenora. Ela é o bem que quero agora, minha querida Lenora. E diz o urubu: vai mal. Oh, profeta, ser das trevas! Fruto de forças malevas Portador de sortilégio e tormenta atemporal Servo da corte maldita, volta pro mundo que habita E não mais aqui crocita. Mas antes, diga a verdade Onde está minha beldade? Imploro pela verdade. E o urubu me diz: vai mal. Oh, bifronte, ser horrendo, outra coisa não desvendo Você é tudo de péssimo, nada que sirva a um mortal Mas se tem um bem restante em seu coração pulsante Que traz de mundo distante, me conte algo de Lenora Meu bem-querer desde outrora, me conte algo de Lenora! E o urubu me diz: vai mal. E nesta hora lhe despeço, ser monstruoso e funesto Pegue a sua tempestade, sua corrente em espiral Nem deixe aqui sua pluma, não fique mesmo nenhuma Bicho de asco e verruma, alce voo inferno afora Suma daqui sem demora, alce voo inferno afora O impassível diz: vai mal! Sem se mexer, tenebroso, um amuado revoltoso Empoleirado no cristo, inerte estátua de sal Bago de fogo em cada olho, anjo de horrendo refolho Lá dos infernos o estolho, sob a luz sua sombra estira Sobre minh’alma que expira, sob a luz sua sombra estira. Por fim suspira: vai mal!
trad. Edival Lourenço - 2017
in Jornal Opção, edição 2203, 02/09/2017
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