Contador Borges |
15 Poemas de O REINO DA PELEO que não cola aos olhos se recolhe às dobras da voz em trevas para outra noite reticente nos lábios infinitos do murmúrio atados pelo impulso da maré escura que dimana no silêncio no momento em que o pulso separa as mil peles do escombro e o ser expulso gira no interlúdio ao sair do tumulto ilusório que gera a cegueira por não conter a febre em seus enclausuráveis poros.
Às cordas do instante o toque é um legado de que somos ressonância na paleta híbrida dos dias sem que se perceba a ação secreta da euforia e seu intento explodindo em pigmentos ou princípio de incerteza onde a luminosidade íntima tende a ser refeita a cada morte mais intensa sob a trama da aparência nos interstícios da vida ou entrelinhas do poema.
Considerar tudo a partir do que vibra. Doravante será esse o rumo a ser tomado na exuberância onde os sentidos eriçam ao tocar as coisas e encarná-las na aspereza de seus pêlos vivos. O mar de ressonâncias é o horizonte de onde derivaremos nosso fluxo mais nítido e toda correnteza o efeito da concha mais íntima de que se tem notícia. Nenhum ressaibo ou fragrância indevidos passarão rente aos elementos de ataque com que o poema costuma abrir ouvidos e pálpebras à efervescência. Suas falanges derrubarão a linha divisória com a estranheza, pois a essa altura todos comungarão da herança que congrega os ânimos adeptos dos atalhos e desvios altaneiros. Neste cenário, até a última pedra da miragem, tudo será concluído em escombros e ruínas. E todo desamparo será sua própria bandeira desfraldada a bater as pálpebras.
Olhos acesos no álcool. O incêndio nos une e separa. Nada aprendi com o tempo, só com as cinzas, na dissolução das coisas íntimas. A fúria enovelada em ternura toquei os ombros dos eventos díspares e em meio ao tumulto deixei os gestos no escuro. Melhor que isso: bebi a esmo um copo negro de esquecimento. O que faz entre os dedos o movimento sem receio de vertigem na escura vigília do que veio antes da origem: espelho de estrelas imberbes em meneio de cílios niquelados na forma da leveza sem sobressalto como as cores da cegueira onde toda ausência se faz presença mais que nua: rarefeita ao ser tocada com a língua.
Talvez um dia as palavras morram como as cores e não haja signos nem intérpretes para a exuberância e o milagre do assombro. As fronteiras vazadas e o espaço assolado todos estarão sem rumo no deserto sob a grande lâmpada, andarilhos de sonhos descalços no vazio profundo como na imagem chinesa do K'an, o Abismal (água): no fundo do abismo há um fosso: abismo sobre abismo. Mas o pior dos presságios não demove inteiramente o encanto com fecho em camafeu de orvalho tanto tempo aquecido sob o fulgor das apostas mais delirantes da espécie. Esta mesma que por alguma razão obscura conserva dentro das almas a insolência do fogo intransferível do retorno.
Tudo muito claro com a púrpura do afeto. Mas como não levar em conta que a bandeira encarnada do amor está fincada sobre o nada disfarçado com estofo colorido para enlevo dos olhos e ruína do equilíbrio? No mais as pétalas do riso de viçosas no início esmaecem sob a chuva das intempéries e calafrios do inesperado rompendo as vigas mestras da matéria onírica com que se cobre tal império.
O herói da ausência tem olhos cheios de noite. E quando se vê desolado sobre a página, sai em busca de sentido e claridade sem saber se voltará para casa ferido de vida ou de morte. Seus olhos estão deitados no infinito, suas mãos tateiam a poeira das belezas transitórias. Sua voz guarda no âmago poder de ocultação e desvelo (como todas as verdades) e esse movimento governa o princípio que desencadeia as ações fabulosas, suas glórias e fracassos. Noite após noite ele cumpre seu rito sob as luas bordadas no céu das gregas calendas. Só irá consagrar-se numa morte inebriante em que sai da pele como um raio que floresce.
Quem de coração adere quer além da pele e ao beijar as veias ser o próprio sangue e toda evidência de um corpo sem fronteiras cuja ressonância ou luz primeira é alma da corrente e voz da transparência que o mais intenso é feito à contraluz do alento sem discernimento e vontade de presença que sendo efêmera quer continuidade na carne das vogais e consoantes onde a margem reina pelo curso e faz a diferença pois tudo é uma questão de ouvir com mais cuidado as reticências.
Todo ato é fio e conseqüência do entrelace onde o homem joga suas chances e fabrica seus acordos e dissídios. O efeito das ações jamais é o mesmo e não há certezas que perdurem sem errância nem atalhos que não levem a precipícios com a vaga complacência dos acasos. Talvez por isso a intensidade sirva de lucidez ao desespero num definitivo e radiante esforço que será ouvido no ponto cego do extremo.
Recolhimento: o que é de fora está suspenso, o que é de dentro se concentra num querer incipiente cujo sentido é não ter sentido ao perseverar pelo íntimo nas entrelinhas, esse outro nome do infinito. Seu segredo se resume em guardar-se entre parênteses como se o tempo fosse alheio e o espaço reticente ao que é feito em sigilo e desfeito em transparência.
Quer a linha da vida com toda irreverência permanecer altiva, indiferente às outras linhas, com sua prerrogativa de carregar a existência para não se sabe onde sem dar trelas aos matizes, às oscilações de percurso, admitindo tudo como contingência ou devaneio de afluentes, desvios da trajetória sem no entanto tirá-la do curso programado ou furtar seu leme sob tempestade ou alívio? Pois ela teima em ramificar-se ao longo dos anos, esta árvore insólita horizontalmente tramada nos extremos da carne como um esboço entregue na contramão dos projetos secretos do âmago. E se este mapa é fiel ao nosso ouro mais íntimo nunca se sabe ao decifrá-lo em mãos alheias olhos doutos quiromantes. Onde nos levarão estas linhas por certo saberemos ao saltar desse tempo para outro (ao dar as mãos à palmatória), breves sombras, meros efeitos que somos de nós mesmos distantes dos traçados e linhas.
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