Leminski
e as gerações futuras

Tarso M. de Melo


"O mundo visível pode fornecer as imagens de que é feita sua poesia,
mas essas imagens combinam-se, justapõem-se de modo sempre imprevisto,
coordenadas às vezes por uma obscura faculdade
cujo mecanismo nos escapa. E escapa talvez ao próprio poeta."

          As palavras acima, de Sérgio Buarque de Holanda sobre Manuel Bandeira, podem muito bem fundamentar a resposta a uma pergunta diversas vezes ouvida: "mas o que Paulo Leminski tem a ensinar aos novos poetas?". Eu diria que, ao fim das contas, o que Leminski legou foi aquilo que poderíamos chamar, sem remorso, de espontaneísmo orientado, atingido através do completo domínio dos "meios" poéticos e de total predisposição ao poema.

          É naquela "obscura faculdade cujo mecanismo nos escapa" que mora a contribuição indispensável de Leminski, que não se privou de declarar algumas diretrizes de sua técnica, como a do poema pensado como golpe de karatê, vindo de dentro, pronto e com rapidez. Obviando, entretanto, que o corpo de onde sai aquele golpe, ditado por uma situação, não é um corpo qualquer. Não pode ser. É um corpo preparado o que deve e pode aplicar o golpe, pois só ele tem a força e o equilíbrio necessários para alcançar "efetividade" e perfeição. Esta imagem, desdobrada, esclarece o procedimento poético do autor de Caprichos & relaxos.

          Não mais nem menos considerável, mas ao contrário dos poetas que celebrizaram o dilema do "papel em branco", Leminski ensina a viver pensando o poema dentro, e soltá-lo sem hesitação. À mínima provocação um avião ou uma mosca o poema/golpe "acontece" espontaneamente, mas nem por isso menos ou mais conciso, necessário, elaborado. O que tornou possível um livro como Winterverno, de reproduções de poemas escritos entre um gole e outro em guardanapos, embalagens de cigarro, etc., cujos originais quase não possuem correções. Prova da já mencionada "predisposição ao poema", como uma reação planejada a favor ou contra o menor dos eventos. Prova também de muito treino, muitas tábuas quebradas antes de enfrentar um adversário.

          E quando o poema surge, parnasiano chic, é ridicularizando suas possibilidades, se engajando naquilo que o mesmo Sérgio Buarque chamou, em Bandeira, de "rebelião contra as formas convertidas em fórmulas". Ou seja: a situação dita a forma, que na maioria das vezes é composta por frases profundas, ambíguas, opacas, "maquiadas" por metros comuns, cuja sonoridade grava-as no leitor. O poema, agora que sabido de cor no mais antigo sentido da expressão vai aos poucos rompendo suas frases que aparentemente são rasas, inequívocas, claras. Ainda que com menor freqüência, esta "maquiagem" ocorre também nos ensaios de Leminski, cujas frases, com as mesmas características estéticas (a síntese, o humor, a ambigüidade, etc.) do verso leminskiano, conseguem ser tão emblemáticas quanto seus poemas, espontâneos e orientados, se é necessário dizer.

          A vasta obra de Leminski (irregular, justamente por ser tão vasta em relação à curta vida do autor, assim como, por exemplo, a do português Mário de Sá-Carneiro) afirma, com sua variedade, a necessidade de concentração e reflexão no "poético" de diversos assuntos, como história, religião, etc., como forma de enriquecimento do "material", da "massa de assuntos". E, como todo grande poeta aliás, o autor do Catatau não se limita a um só campo, à metalinguagem ou, o que seria pior, à auto-estima como se vê aos montes por aí. O que podemos aprender com isso? Que o poema não vive só de poesia, ainda que deva viver, pura e simplesmente, para a poesia.

          Aqui, apenas uma vista aérea da produção do poeta curitibano. Qualquer mergulho mais dedicado poderá encontrar centenas de respostas para a pergunta acima. Um poeta que se dedicou integralmente, durante os quarenta e quatro anos que viveu, à causa da poesia, já começa a contar daí motivos para ser lembrado e respeitado. Não é nem mesmo necessário julgar a qualidade do que fez. O que seria covardia.

 

Tarso M. de Melo, poeta, reside em Santo André, SP, autor de Odisseu sandeu (ed. do autor, 1996), Poesia, pão e circo & Paulo Leminski: ofício de fascínio (Alpharrabio, 1997) e Mimos mínimos (Alpharrabio, 1997)

 

OBS: Publicado originalmente no caderno Sábado do jornal literário O POVO (Fortaleza - CE), de 7 de fevereiro de 1998

Copyright 1998 by Tarso M. de Melo

 

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