As cartas de Leminski*

Manoel Ricardo de Lima


A correspondência de Paulo Leminski para o também poeta Régis Bonvicino ganha uma caprichada edição fac-similar. "Envie meu dicionário" é lançado às vésperas do quinto aniversário de morte do principal nome da literatura brasileira dos anos 70.
"Não é obrigado a perder tempo dizendo exatamente o contrário? Bonito, o que dá certo ali. Medo de morrer - eu não tenho, onde cair morto. Afaste-se um pouco." ou "Tomei consciência, tenha paciência, anularam o silêncio: a mente faz tudo tragédias, bem melhores são as coisas. Memória, a pior coisa do mundo." Estas duas falas, ininterruptas, sangradas, desconstruídas, estão em um livro chamado Catatau, de 1975. Seu autor? Paulo Leminski. Livro pouco lido, sabe-se lá o porquê, talvez pelas intempéries, esquisitices formais, da literatura brasileira que sempre pré-conceitua o novo.
Mas é de Leminski mesmo que falo, de sua importância como poeta para toda uma geração desde a década de 70, para o que veio depois dela, queiram ou não negá-lo. E, mesmo e de fato, por causa da "pior coisa do mundo", a memória: 1) dez anos da morte de Leminski, próximo dia 07, junho. 2) reedição das cartas para o poeta paulista Régis Bonvicino publicadas em 1992, Uma carta uma brasa através. Refeito, melhorado, com mais ensaios e fac-similar, dando pingos aos is: Envie meu dicionário, de Paulo Leminski e Régis Bonvicino, editora 34.
Muito se diz, pouco se procura saber sobre a poesia de Leminski. Daí, essas cartas vêm corroborar com uma tarefa aparentemente dificultada: inserir de vez esta produção inteligente como princípio motor de um registro intenso. Não é fácil atravessar o percurso que Leminski fez, vir desde os anos difíceis da década de 60, perseguindo algumas idéias de linguagem da poesia concreta, romper com elas; redescobrir a importância do modernista Oswald de Andrade e seus poema-piada, poema-minuto e conversas nacionais; o diálogo com a literatura clássica, com a poesia Beat americana, com os simbolistas para tentar impor novos percalços para a lírica moderna; a música popular, a expressão popular, o provérbio, a doença da frase, do verso, o orientalismo dos haikais de Bashô, as mais diversas línguas e filosofias e o percurso histórico e estético das vanguardas no século XX.
Tanta inquietação, óbvio, geraria distúrbios de vida. Juntar os materiais desses distúrbios, as coisas que Leminski escreveu, publicou e espalhou por jornais e revistas, suas cartas, parece uma tarefa um tanto árdua. E é. Leminski escrevia com uma disciplina monástica e uma intensidade feroz. Por isso, o poeta Régis Bonvicino parece estar cumprindo uma tarefa demarcadora, de generosidade: trazer a público um volume exemplar de sua correspondência com Leminski para facilitar o entendimento de uma obra tão cheia de raízes e ainda pouco estudada.


Muito além de um poeta marginal

Neste livro, Envie meu dicionário, há os mesmos pontos da edição anterior com muito mais interseções para elucidar o desregramento lúcido de Leminski. Ensaio de apresentação do poeta Júlio Castaon Guimarães, notas e uma pequena "vida e obra" fundamental por Tarso M. de Melo, uma boa dose de crítica em ensaios e artigos de Régis Bonvicino sobre Leminski, seus livros e a posição que ele ocupa na cena contemporânea da poesia brasileira; e os registros da edição anterior por Carlos Ávila e Boris Schnaiderman.
Do projeto fac-similar, o que se perdia na edição anterior vem resgatado por essa propriedade que é ver/ler o desenho das cartas. São documentos que demonstram o verbo fácil, o derramamento constante de idéias, o carinho, a rispidez sincera de uma fonte precisa, o estranhamento e a definição de uma poesia que se construía no diálogo, que se afirmava na categoria de um empreendimento cultural que se projeta como uma identidade de círculos especulativos, de materiais mergulhados na palavra, palavra, palavra.
O discurso poético de Leminski, diz Régis citando Wittgenstein, "é essencial para a coisa poder ser parte constituinte de um estado de coisas." Penso no que foi e é pretendido para a poesia brasileira: "constituir um novo estado de coisas, deslocar o escolástico e enfatizar a necessidade da invenção de um outro - qualquer algum, ninguém - que, entretanto, pouco visível, está escrito."
Depois, deslocar ou desmerecer a poesia de Paulo Leminski parece-me ser um equívoco, quase grave. Primeiro quando o taxam, em absoluto, como poeta marginal; depois, quando o degredam como poeta de "versinhos normais", meramente proverbiais. Erros. Basta passar os olhos por alguns trechos de suas cartas, de seus poemas, de seus romances de poeta, para espichar o olhar para mais longe, atrás e adiante, e identificar Leminski com a ruptura tradicional, o amém aos focos isolados, do quadro poético no Brasil.
Morto, Leminski mantém-se vivo. Seus poemas, suas narrativas, suas locomotivas para as guerras de dentro da gente, seu jeito claro de não ser óbvio. Tudo vibra. E é esta vibração de vida, porque para Leminski poesia e vida sempre foram uma coisa só, que podemos ler como poemas em suas cartas para Régis. Como neste trecho da letra de uma musiquinha que compôs: "valeu / encharcar este planeta de suor / (...) / valeu / encarar esta vida que podia ser melhor".

Manoel Ricardo de Lima

Envie Meu Dicionário - Cartas de Paulo Leminski a Régis Bonvicino. Lançamento da Editora 34. 270 Páginas. R$ 24,00.

 

Manoel Ricardo de Lima escreveu sua dissertação de mestrado em Letras (UFC) sobre a poesia de Paulo Leminski.

 

*OBS.: Publicado no suplemento Vida & Arte, Jornal O POVO, Fortaleza, 17 de maio de 1999.

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