Paulo Leminski:
o elo perdido
da poesia brasileira
*

Vivaldo Trindade


"ascensão apogeu e queda da vida paixão e
[morte
do poeta enquanto ser que chora enquanto
chove lá fora e alguém canta
a última esperança de chegar
à estação da luz e pegar o primeiro trem
para muito além das serras que azulam no
[horizonte
e o separam da aurora da sua vida"


Rezam as lendas que em agosto de 1963 um jovem de dezessete anos partiu de Curitiba para Belo Horizonte de carona. Seu intuito era aportar na capital mineira para a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, onde se reuniam Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Benedito Nunes, Luiz Costa Lima e outros para discutir e lançar um novo programa para a poesia brasileira. O resultado da iniciativa do destemido jovem deu-se um ano depois, quando estreou no quarto número de Invenção, revista propagandista dos concretistas, com cinco poemas. O poeta se chamava Paulo Leminski e, enquanto viveu, foi um dos mais ousados e melhores poetas de seu tempo.

Esta colaboração foi o primeiro de longos e vigorosos passos. Leminski escreveu livros, fez música, jornalismo, lecionou, ingressou na tevê, foi agitador cultural e constituiu-se numa figura emblemática para sua geração. Geração disposta a abandonar os literalismos, a usar seu poder de fogo para questionar e implodir estruturas, estabelecendo e se apropriando de novos focos de comunicação, novas formas de expressão e linguagem. Torquato Neto, Ana Crisitina Cesar e Duda Machado são outros a ocupar a linha de frente deste time de letras.

E pensamos se a projeção alcançada por ele, distinguindo-se dos outros em poder de penetração, não foi justamente por seu dinamismo. Quando Caetano Veloso musicou e gravou uma composição sua, Verdura, no disco Outras Palavras, 1981, Leminski se alça finalmente para o público de massa e, posteriormente, viria a conquistar seguidas reedições de seus livros.

Há quem pense que a poesia vive um momento em que se não submeter-se a outros gêneros morrerá. E há também alguém que pensa que a poesia deixa de ser poesia quando amparada por outros suportes que não o papel ou a tela de um computador. São os arrendatários de títulos nobiliárquicos e os profetas do infortúnio. Dão maior importância ao status que a literatura proporciona do que à própria literatura, pretendem-se heróis e senhores de conhecimentos únicos.

Contudo, para que a palavra permaneça viva, representando os diversos sentimentos das coisas: cheiro, forma, sabor, imagem e som, significando idéias, é preciso que não se desassocie do mundo no qual está inserida, e, sendo, no caso, a literatura brasileira, deve estar ela associada ao Brasil.

Mário Faustino exprimiu com muita felicidade o perfil necessário para o legítimo poeta de uma nação: deveria ele reunir em si os três andrades: a combatividade de Oswald, a erudição de Mário e o fôlego de Carlos Drummond.

Se Paulo Leminski não realizou o sonho de Faustino, pelo menos se aproximou dele, sendo um pouco Mário e Carlos e quase totalmente Oswald. Antes dele, somente Carlos Drummond fora tão completo. Depois dele, ninguém.

É ele uma espécie de elo perdido da poesia brasileira, alguém que se precisa enxergar mas ao qual não se vê nada além de um vulto difuso para o futuro.

Paulo Leminski soube tirar o melhor de suas experiências como matéria de estudo. Dos concretos herdou o gosto pela concisão e a força da imagem sem deixar-se seduzir por um hermetismo de gabinete. Do hai kai moderno, a precisão. Do modernismo, o humor. Dos beatniks, o gosto pela vida e o afrontamento das formas de poder. E mesmo da tradição em que se inscreviam românticos e simbolistas, um idealismo existencialista. Mas o principal no seu apropriamento consiste no uso da linguagem, no "como" ele manuseia a coloquialidade e a oralidade, tal como vemos em um de seus poemas sem título:

este planeta, às vezes, cansa,
almas pretas com suas caras brancas
    suas noites de briga braba,
sujas tardes de água mansa,
    minutos de luz e pavor

    casa cheia de doce,
ondas tinindo de dor,
    acabou-se o que era amargo,
pisar este planeta
    como quem esmaga uma flor

Ou ainda:

hoje o circo está na cidade
todo mundo me telefonou
hoje eu acho tudo uma preguiça
esses dias de encher lingüiça
entre um triunfo e um waterloo

Assim como é facilmente percebível o diálogo com o momento vivido no clima de tensão e violência de "Como Abater Uma Nuvem a Tiros":

     sirenes, bares em chamas,
carros se chocando,
     a noite me chama,
a coisa escrita em sangue
     nas paredes das danceterias
e dos hospitais,
     os poemas incompletos
e o vermelho sempre verde dos sinais

E em como, para ele, o poeta tem de estar engajado na matéria da vida, conforme o manifestado em "Profissão de Febre":

     quando chove,
eu chovo,
     faz sol,
eu faço,
     de noite,
anoiteço,
     tem deus,
eu rezo,
     não tem,
esqueço,
     chove de novo,
de novo, chovo,
     assobio no vento,
daqui me vejo,
     lá vou eu,
gesto no movimento

E este é um aspecto imprescindível para a poesia de qualquer época. Toda a universalidade de discurso, querendo-se ou não, é advinda desse processo, partindo da vida para a história, ou, no máximo, de uma revisão da história, contextualizando-a no presente, e não o contrário.

Precisamos urgentemente de literatas, artistas e intelectuais comprometidos com o projeto da modernidade. Modernidade no sentido mais nobre da palavra, sem arroubos consumistas de tecnologias ou melancólicos suspiros em volta do passado. Para isso não é necessário desprezar a tradição nem fincar ferros em efemérides. Basta disposição para procurar entender o seu tempo canalizando as causas assumidas no passado e suas possíveis conseqüências no futuro, sem medo de arriscar o uso de novas linguagens ou possuir preconceitos quanto a coloquialidade.





Vivaldo Trindade

 

*OBS.: Publicado originalmente no site da Verbo, em 23 de Agosto de 2001.

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